ZÉ AMORIM E O BOMBEIRO CATOPÊ
Estamos em pleno mês de agosto, quando o vento sopra gostoso e se empinam papagaios multicoloridos, que contrastam com o céu azul-anil do sertão e fazem a alegria da garotada.
Na segunda quinzena do mês, o mesmo sopro morno de vento conduz e faz ecoar cidade afora os batuques cadenciados das caixas de percussão dos ternos de catopês, caboclinhos e das marujadas, em seus desfiles pelas ruas centrais desta cidade dos Montes Claros. Mestre Zanza reina absoluto, com seu capacete adornado de miçangas, paetês e de vistosas penas de pavão.
As ruas estreitas do centro são também enfeitadas de fitas coloridas, sinalizando que as Festas de Agosto e o Festival Folclórico começaram.
Todo ano, o ponto alto das festividades – para nós que as assistimos de camarote, ali no Café Galo – é o desfile conjunto de todos os grupos de Congado. De máquina fotográfica em punho, vamos registrando os pequenos detalhes dessa tradicional manifestação popular, que se repete há mais de 160 anos.
O que nos chama a atenção, de forma especial, é a dança dos catopês. Curioso como sou, fui pesquisar o porquê daquele bailado característico, que evoca alguns passos da capoeira, com passadas largas para os lados e, de vez em quando, pulos repentinos para trás, como se os dançantes se protegessem de um ataque de arma branca. De fato, tal saracoteio tem relação com embate entre contendores. A explicação que obtive é que essa dança representa a luta entre os cristãos e os mouros. E, ao contrário do que se imagina, a dança dos catopês não tem origem africana, mas lembra a “Chanson de Roland” trazida pelos catequistas jesuítas.
O saudoso Zé Amorim, montes-clarense dos quatro costados, também apreciava a evolução dos catopês, ali da esquina da Cristal e do Café Galo. Só que Zé Amorim não precisava de máquina fotográfica, como eu, para registrar os detalhes da dança catopéia. Tinha uma capacidade inata de memorizar as particularidades. E, nos momentos mais oportunos, utilizava-se dos pormenores armazenados em sua prodigiosa memória para ilustrar uma conversa. No caso dos catopês, por exemplo, lembrou-se deles fora de época, quando teve um pequeno problema hidráulico em sua residência: a torneira da pia da cozinha estava desregulada e esguichava água para todo lado, quando era aberta.
Em sua ida diária ao Café Galo, perguntou ao Jadir, entre um cafezinho e um pastel curraleiro, se conhecia um bom encanador. Abrindo sua indefectível e velha agenda preta, abarrotada de papéis e cartões de visita, Jadir forneceu ao Zé Amorim o nome do bombeiro - Astrogildo Flores - e o telefone de favor. Dali mesmo, Zé Amorim ligou e pediu à vizinha do encanador que lhe repassasse o recado de solicitação de serviço, fornecendo-lhe seu endereço.
Depois do almoço, na hora em que o Zé fazia a sesta, toca a campainha na casa dos Amorim. Zé vai atender e encontra à porta um senhor muito bem vestido, calça engomada com vincos perfeitos, camisa de manga comprida abotoada nos punhos, sapato engraxado. Ele até achou que fosse mais um vendedor de livros, mandado pelo Daço Cabeludo para encher a sua paciência naquela sagrada hora de repouso. Mas, na dúvida, foi solícito:
- Pois não, senhor, o que deseja?
- Sou Astrogildo, o encanador. O senhor mandou me chamar...
Ciente de quem se tratava, Zé Amorim solicitou ao Astrogildo que entrasse e foram direto para a cozinha, onde lhe mostrou o problema a ser solucionado.
- Essa torneira aí tá com uma pequena desregulagem. Veja aí o que pode ser feito.
O encanador se aproximou da pia e abriu a torneira de vez. Foi a conta. A água, com pressão, saía para todo lado e o Astrogildo, para não se molhar, deu um pulo pra trás. Aí é que Zé Amorim, que não identificara o encanador pela vestimenta, capitulou nervoso:
- Pode parar. Pode parar. Bombeiro que tem medo de água e dá um pulinho pra trás feito um catopê num serve, não. Quero é um com roupa suja de graxa e com o calcanhar rachado pisando fora da sandália japonesa. Esse é que entende de torneira...
E despachou, dali mesmo, o encanador grã-fino...
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CARTAS & E-MAILS
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Itamaury: Parabéns pela matéria sobre Drª Dolores Santos, pois quem a conhece sabe que é honesta, dedicada e supercompetente. Força Drª Dolores...
Edna Santos (ednasanttos@hotmail.com – Belo Horizonte–MG