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Rumor de poeta

27/03/2009 - 09h56m

Márcio Adriano Moraes
Professor de Português e Literatura
marcioadrianomoraes@yahoo.com.br

Tudo finda, tudo se esvai no tempo cronológico do nascimento à morte. Porém, na mente, os rumores, odores e humores permanecem tal diamantes inquebrantáveis. E, na infância que clama sua existência na memória, a menina Telma ouve o barulho das chaves, dos passos que penetram na casa; vislumbra a boa avó Elza com seu tricô feito de cordões umbilicais, vida em gestação.

Fecham-se as vidraças e do lado de fora nada a preencher. Tudo, completamente, tudo vivido, tudo vivo, tudo vindouro pertence à recordação. E nesta viagem dentro de si mesma, há uma garotinha observadora que, mesmo furando a mão com as agulhas de tricô, não ousa mais lançar seu xixi na cama. Podre daquele que cresce e deixa de ser neto e neta, de brincar entre as laranjeiras e limoeiros, de ver os sapos pular, usar as calcinhas infantis, de ouvir o silêncio exigido pelo avô em dias santos. Viva a sexta-feira da Paixão, quando havia paixão pelo Cristo na cruz.

Engana-se quem acredita que em uma obra literária é preciso encontrar algo extraordinário ou ordinário. Através de uma poesia saudosista, a mestra Scherer, em seu Rumor de casa, atenta-se em detalhes perceptíveis apenas por olhares pueris, como um copo sujo na pia, o rabo do rato morto grudado no sulco do chão, as agulhas, a poeira nos travesseiros, como a nos alertar de que o ar é muito mais que respiração, também inspiração, pulverização... Inútil trançar com palavras... “A vida devia ser chamada para inspeção”. Mas quem seria o inspetor? Quem faria essa vistoria meticulosa? Sarah, Virginia, Ana, Clarice, Socorro, Sylvia? As pessoas que fizeram ou que fazem parte de uma vida. Afinal todos somos uma ilha povoada... A melhor inspeção é a introspecção...

A recordação da casa torna vivos não apenas os cômodos, os objetos, as peripécias infantis, mas também as aventuras joviais, o despertar para temas mais adultos como a sexualidade. Qual garotinha não se assustaria com sua primeira mancha, nódoa, mácula? Logo, o que seria do poeta sem as metáforas? E graças a esta figura, a poeta consegue transmitir os seus segredos e pensamentos mais íntimos de forma graciosa, criando uma atmosfera alegórica da vida e, sobretudo, das experiências amorosas. Como uma aranha a tecer sua teia, bote armado e, quando a vítima cai, adia-se o enlace, ficando as dores, as cicatrizes, marcas cravadas e crivadas na memória. “No ofício da carne ninguém é mais é sempre menos”.

A religião que hoje está se tornando relíquia sempre fez, faz e fará parte da vida de todos os humanos, tanto que a espécie não deveria se chamar homo sapiens, mas sim homo religiosus, é avocada para lembrar pecados. A resistência a certas atitudes seria amenizada se um santo surgisse balbuciando: “pode pecar que não dói”. Contudo, há “uma dor ao cruzar as pernas e o santo nem aí. Mil páginas até o pai. Mãe solteira, busco o número da clínica de aborto”.

E assim, os versos de Telma nos conduzem a experiências vívidas e vividas, como todos os mortais escravos das recordações. Impossível guardar apenas riscos retos, os traçados tortuosos, as facas que nos ferem estão mais claras na mente que qualquer sorriso. Tão bom crer em Papai Noel e colocar o sapatinho na janela. Hoje, Papai Noel é um homem “perdido, preso no trânsito, com contas a pagar, um homem de pânico”. Mas a criança sempre ganhava presentes. Mas agora, os presentes que queremos não podem mais chegar. Por que Papai Noel não existe ou ele se tornou mais enérgico? “Ai, velhinho, eu pedi um amor, mas no teu saco vermelho veio um recado: quem peca há de ganhar presente só no céu”.

O silêncio da casa que aparece nos primeiros versos do livro desperta um soco de som nos últimos versos. E enquanto o ambiente cala, a poeta grita e tece com suas agulhas uma história. As portas se abrem, mas devem ser fechadas. “Era uma vez o mundo/ depois vieram os demolidores do mundo/ depois vieram os engolidores de fogo/ depois de depois restou um sulco cravado na madeira”.




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