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O Norte de Minas Uma publicação da Indyugraf Ltda. www.onorte.net


O trem baiano

19/10/2009 - 10h30m

Assim era chamado aquele trem que partindo de Monte Azul, no extremo norte de Minas, vinha descendo, serpenteando, por aquela estrada de ferro, cheia de curvas, com destino final a capital mineira, Belo Horizonte. Passava por cidades pobres e parava naquelas velhas estações onde às vezes embarcavam e desembarcavam passageiros.

As cidades refletiam a pobreza do lugar, era uma pasmaceira, trabalho, praticamente existia apenas na roça, onde uma agricultura de subsistência, criação de galinhas e algumas vacas ajudavam no sustento das famílias. O que sobrava era vendido no mercado para pagar as contas do armazém e da farmácia.

O sonho de alguns era juntar dinheiro, comprar uma passagem no trem baiano que os levaria em busca de um futuro melhor, quem sabe, conseguir um emprego em Montes Claros ou mesmo em Belo Horizonte. Aquele trem até que poderia ser chamado de Trem da Esperança, mas ficou mesmo com o nome de Trem Baiano, sem nunca ter passado pela Bahia. Vinha balançando e, com o seu som monocórdio do passar as rodas nos trilhos aumentava o cansaço. Alguns dormiam e outros ficavam mareados, era como um barco no balanço do mar.

Era quase todo de madeira, até as cadeiras da segunda classe, nelas vinham geralmente os passageiros que embarcavam em Monte Azul, Janaúba, Burarama, o preço era mais em conta. Os vagões da primeira classe tinham cadeiras forradas, não se podia chamar aquilo de poltrona. O preço da passagem era maior, normalmente eram usadas pelos passageiros que embarcavam em Montes Claros, onde era engatado o vagão leito,que tinha um pouco mais de conforto. Era muito disputado, principalmente pelas mulheres, que evitavam se misturar com os outros passageiros. Havia dois tipos de leitos, o inferior, que apesar do nome era mais caro e oferecia a comodidade de evitar  subir numa escadinha para alcançar o leito superior. Era como uma cama beliche. Para manter a privacidade, tinha uma cortina feita de um pano com a cor de um gosto meio duvidoso e, que o tempo já tinha se encarregado de deixar puídas.

Completando o comboio, tinha o vagão restaurante. Para frequentá-lo tinha que ser passageiro da primeira classe ou do leito. Era onde se passava grande parte da viagem, apesar da cerveja quase quente e um jantar requentado. Mas era o que tinha, e, as pessoas procuravam fazer de um limão, uma limonada. Vida que segue e viajar no trem baiano era quase uma tragicomédia, faz parte da história de Montes Claros.

Num entardecer quente de outubro, a plataforma da estação lotada, pessoas que iam embarcar muitos acompanhados pelos parentes e outras aguardando parentes e amigos que iriam chegar, aguardavam a chegada do trem, torcendo para que não estivesse atrasado. Ouve-se então um apito longo, eram quase dezenove horas, todos olhares se voltam para a esquerda, o trem vai aparecendo aos poucos, já iniciando o processo de frenagem. Aos poucos vai parando, até ficar estático. Os mecânicos e os ajudantes entram em cena, é hora de fazer os ajustes necessários para mais uma jornada de dezesseis horas. Alguns passageiros descem; é o momento de comerem alguma coisa, tomar um café e se prepararem para enfrentar mais um longo trecho em direção à Capital. Outros sobem nos vagões para tomarem seus lugares na primeira classe e nos  leitos. È hora da partida.  Das janelas mãos fazem gestos de despedida, ouve-se o apito longo anunciando que chegou o momento da saída. Devagar o trem começa a rodar, seu andar é lento, produz uma certa nostalgia. Para quem ficou na plataforma a última visão é do vagão leito, o último do comboio.

Dentro do trem, os passageiros começam a se acomodar, alguns tinham pressa em se alojar no vagão restaurante em busca da cerveja, de aguardar o jantar e, principalmente bater papo para não sentir o tempo passar. Nesta noite uma turma que estudavam em Belo Horizonte se agrupou em torno de duas mesas, que eram fixas e foram logo pedindo a cerveja. O chefe do trem ia passando vagão por vagão, picotando as passagens, fazia isto durante todo o percurso; era o controle das passagens e passageiros. Até aquele momento tudo transcorria normalmente, já haviam se passado mais de sete horas de viagem, muitos voltaram para seu vagão de primeira classe, outros para os leitos, permaneciam ainda os estudantes e alguns passageiros mais chegados à cerveja. De repente um odor horroroso invade o vagão, todos avançam nas janelas para respirarem ar puro, apesar do vento frio que invadiu o local. Um estudante havia soltado um peido alemão, pedaço de cordão misturado com um produto químico, que aceso, produzia aquele cheiro insuportável. A partir deste momento a situação ficou insustentável, ninguém sabia o que era nem quem fora o autor da façanha. Algazarra geral no vagão, garrafas de cerveja jogadas para fora, toalhas voando em todas as direções e os garçons atônitos sem tomar atitude. A bagunça estava aumentando, quando uma porta se abre, entra o chefe do trem e, com autoridade de um comandante de navio já entra gritando “todos que estão aqui vão descer em Curvelo,”faltava menos de vinte minutos para chegar lá, “e vão todos para a delegacia.” O homem tinha quase dois metros de altura e seu  vozeirão já impunha respeito. Foi uma tremedeira geral, principalmente dos estudantes, alguns menores de dezoito anos. Não deu outra, ele já havia passado um rádio para a estação de Curvelo e ao chegar lá uma tropa de policiais aguardava os baderneiros.

Todos instalados na delegacia, numa sala enorme, eram uns quinze, ouviram de lá a saída do trem sem eles. Apreensão e desespero tomaram conta de todos. A sorte é que um dos estudantes tinha um tio advogado na cidade e pela manhã ele conseguiu liberar todo mundo. Esta foi uma das muitas histórias passadas no saudoso Trem Baiano.




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